sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

E da erva se fez a cura

fpemat
http://revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=650


E da erva se fez a cura
26/01/2015 20:18
E se alguém te abordasse agora com um tapinha nas costas e perguntasse: “curte um baseado?”. Como resposta, talvez viesse um “é proibido o uso de qualquer droga no Brasil” ou “consumir maconha faz mal à saúde”. No frigir dos ovos, ou você recusaria, ou toparia, não sem levar em conta um amontoado de ressalvas.
 
Mudemos o cenário: um médico te dá uma prescrição, sugerindo que você passe numa farmácia e compre um remédio, cuja fórmula apresenta um dos 60 compostos ativos da maconha. Que tal? Se ali estivesse a garantia da solução dos seus problemas, você seria um maconheiro com muito orgulho, com muito amor.
 
Pois bem. Não são poucos os pesquisadores da área da Saúde que defendem o uso do canabidiol [CBD] – uma das principais substâncias da maconha – para o combate de algumas doenças graves, como a epilepsia.
 
O canabidiol, em estado líquido, é injetado via oral
[Foto: www.dm.com.br] 
 
No Estado de São Paulo, por exemplo, duas gêmeas nasceram com Síndrome de West[forma de epilepsia severa, de difícil controle]. Com os remédios tradicionais, uma delas chegou a ter 50 convulsões no mesmo dia. Após duas semanas do início do tratamento com o canabidiol, as crises terminaram e não voltaram, ao contrário do que ocorria com o uso de medicamentos convencionais.
 
Porém, a questão ganhou notoriedade com o caso da garota Anny. A criança de cinco anos sofre de Síndrome de Rett CDKL5, anomalia rara que chegou a gerar 60 crises convulsivas em apenas um dia. Quando ainda não existia qualquer tipo de via legal para medicar o canabidiol, os pais chegaram a traficar a substância.
 
O vídeo aborda a luta dos pais da menina Anny para conseguir o canabidiol. O conteúdo foi produzido e veiculado em março de 2014, ou seja, antes da decisão do Cremesp e da Anvisa. 
 
Como o consumo da maconha é proibido no país, o uso para fins medicinais era limitado e burocrático. O interessado precisava encaminhar para a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] a receita e o relatório médico. Depois de autorizada a aquisição, era preciso importar o remédio, que custa cerca de R$ 400 e dura um mês.
 
Para amenizar a demora, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo foi precursor, e elaborou, ainda em 2014, uma resolução que autorizou o uso do canabidiol apenas para formas graves de epilepsia em bebês e crianças. No último dia 14, foi a vez da própriaAnvisa excluir o canabidiol do rol de substâncias proibidas. Agora, ele é considerado um medicamento e pode ser receitado [por neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras] a pacientes de até 18 anos, desde que as formas convencionais de tratamento não apresentem resultados satisfatórios.
 
O Governo Federal já recebeu 374 pedidos, dos quais 336 foram aprovados. Do restante, 20 aguardam o enquadramento às exigências por parte dos interessados e 11 são analisados pela área técnica. Por questões judiciais ou pessoais, sete solicitações foram arquivadas.
 
Um pouco mais sobre o medicamento
Canabidiol, ou CBD, é uma das 60 substâncias ativas presentes na maconha [Cannabis sativa]. Não provoca alteração nos sentidos, nem gera dependência. O outro componente principal da Cannabis é o THC [Tetrahidrocanabinol], responsável pelo efeito inverso e mais agressivo da planta.
 
Em artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, edição de maio de 2010, José Alexandre Crippa, Antonio Waldo Zuardi e Jaime Hallak discorrem sobre o comparativo entre CBD e THC. “Um recente estudo (...) com CBD e ∆9-THC confirmou a ideia do potencial antipsicótico do CBD. Neste estudo, os autores verificaram que o ∆9-THC e o CBD apresentaram efeitos opostos na ativação de diversas áreas cerebrais usando diferentes tarefas. Em um segundo experimento, o pré-tratamento com o CBD foi capaz de prevenir a indução aguda de sintomas psicóticos induzidos pelo ∆9-THC. Este resultado é consistente com o achado de que os sujeitos usuários de amostras de cannabis que contêm mais CBD em adição ao ∆9-THC têm menor propensão de apresentar sintomas psicóticos do que aqueles que fumam amostras de cannabis sem CBD”.
 
Foto: www.lersaude.com.br 
 
O CBD apresenta eficiência em pacientes com glaucoma, mal de Parkinson, ansiedade, esquizofrenia e alguns transtornos de sono. Age contra a perda de memória dos pacientes com Alzheimer, atenua a degeneração de neurônios em casos de alcoolismo, inibe metástases em câncer, especialmente o de mama, além de diminuir as náuseas de pacientes em quimioterapia ou em tratamento contra o HIV.
 
Falando especificamente sobre o Parkinson, os três pesquisadores da Universidade de São Paulo [Medicina/Ribeirão Preto] relatam testes feitos com CBD em humanos. “Em um estudo piloto aberto, testamos a administração de CBD em seis pacientes ambulatoriais com o diagnóstico de DP [doença de Parkinson] e com sintomas psicóticos associados por pelo menos três meses. Estes receberam uma dose oral flexível de CBD [começando com 150mg/dia] por quatro semanas, além de suas terapias usuais. Tanto os sintomas psicóticos como motores reduziram significativamente com o tratamento com o CBD e não houve piora dos sintomas cognitivos. Estes resultados preliminares sugerem que o CBD pode ter um efeito benéfico na DP”.
 
Usos e histórias da maconha
Você pode até duvidar, mas o sucesso da viagem de Pedro Álvares Cabral e sua trupe à terra brasilis foi bem sucedida graças à maconha. Sim, porque as potentes caravelas lusitanas levavam carvalho no casco e cânhamo [fibra produzida a partir de planta do gênero cannabis] nas velas, material bem mais resistente que o algodão. Ou seja, Portugal tinha o básico para chegar ao Brasil: visão, grana e... maconha.
 
À época, o cânhamo era matéria-prima para produção cordas, tecidos e papel. Antes disso, os chineses, inventores do papel, utilizavam a fibra, bem como Gutenberg, na hora de imprimir seus livros. Antes da iluminação a gás ou elétrica, o componente que viabilizava energia era o óleo de cânhamo, antecedido pelo óleo de baleia.
 
Fios de cânhamo
[Foto: www.portuguese.alibaba.com] 
 
No entanto, bem antes, a maconha já era tida como matéria-prima. Anterior ao ano 2 mil a.C., algumas culturas orientais já utilizavam a maconha para fins medicinais. Já o viés pecaminoso da planta – e do seu uso –, implementado pela Igreja, data do século XV. Os curandeiros da época, perseguidos em nome do Papa, utilizavam a cannabis como recurso de cura. Era o que a Igreja precisava para decretar a proibição do consumo da planta.
 
Cheguemos aos dias de hoje. Tem-se o hábito de relacionar a Jamaica à maconha. E a analogia não é equivocada [embora as nossas leis e convenções deem, equivocadamente, um tom pejorativo a esse paralelo]: toda a tradição daquele país se deve à Coroa Britânica. Ao levar para a América Central mão-de-obra africana, a ideia era transformar o país em uma imensa área de cultivo para a produção do cânhamo. Isso ocorreu no Brasil também: Portugal sabia que o mercado de tecido era intenso, e o cânhamo apresentava-se como principal matéria-prima. Além disso, os escravos vindos da Angola trouxeram para o país o costume de fumar, convencionando-se a expressão “fumo de Angola”. Em suma, nas lavouras tupiniquins já teve maconha a dar com pau.
 
Mais um uso da planta pode ser identificado em outras duas culturas. Até hoje a maconha é utilizada no costume rastafári, que mescla as tradições judaicas e cristãs, em rituais de limpeza e purificação. Já nos Vedas [reunião dos quatro volumes de textos em versos – hinos e preces], principal livro do hinduísmo, escrito mais de 1500 anos antes da Era Cristão, a cannabis era descrita como o alimento preferido do deus Shiva. Para os indianos, usar maconha era entrar em comunhão com Shiva. Trocando em miúdos, fazer a planta virar fumaça significava estar quite com a divindade.
 
Como se vê, tivemos períodos de uso indiscriminado da maconha, enquanto o momento atual proíbe a sua utilização, pelo menos no Brasil. Ao que parece, uma necessidade medicinal quer botar o assunto em discussão novamente.
 
 
Colaboração: Mariana Mouro, estudante do 2º semestre de Comunicação Social da UFMT/Cuiabá
Imagem de capa: www.brasilpost.com.br
Thiago Cury



Não é só juntar latinhas e separar o lixo

fapemat
http://revistafapematciencia.org/noticias/noticia.asp?id=652


Não é só juntar latinhas e separar o lixo
28/01/2015 17:49
Quanto pesa o seu celular? 100, 150 gramas, talvez menos? Mal o sentimos no bolso. E um notebook? Um tablet? Se comprar uma Smart TV, pode instalá-la sozinho, sem grandes problemas. A tecnologia ficou mais leve e compacta.
 
Agora, imagine juntar mais de 1,3 milhão de toneladas desses aparelhos... Quantos celulares serão necessários? Pois é, essa é a quantidade de lixo eletrônico gerado pelo Brasil em 2012, segundo dados da ONU [Organização das Nações Unidas]. Para 2017, as expectativas são ainda mais alarmantes.
 
Anotou? Então pense nos televisores e monitores antigos, aqueles de tubo. Com as telas novas, quantos equipamentos daqueles não vão para o lixo, e quanto isso deve pesar? A resposta: muito. Talvez até demais, e tudo isso causa problemas, seja na natureza ou na cidade.
 
O professor Einstein Lemos de Aguiar, da UFMT, coordenou a criação de uma máquina que facilita a reciclagem desse lixo. Ela processa placas de circuito. A invenção foi só o primeiro projeto do que viria a se tornar o Núcleo de Gestão do Conhecimento Aplicado à Economia Verde.
 
 
Prof. Einstein participou da criação de um equipamento que recicla lixo eletrônico
[Foto: Daniel Morita]
 
Hoje, o Núcleo, que está finalizando sua criação formal, já tem cinco projetos, todos voltados para a reciclagem com geração de renda. Por isso a economia verde. Ela não só gera dinheiro, mas ajuda a se livrar de um problemão, que são os resíduos.
 
A máquina que processa placas de circuito [RPCI] está em vias de ganhar um ‘cérebro’: oSmartRPCI deve ser a nova versão do equipamento que pode reconhecer diferentes componentes das placas e autocalibrar para fazer tudo de forma mais eficaz. As razões para reciclar as placas são simples: o impacto ambiental que elas causam nos lixões e depósitos e os vários metais que foram usados na sua construção, em especial, o ouro.
 
 
Com uma tonelada de placas recicladas, é possível extrair alguns gramas de ouro. Na palma da mão, não parece muito, mas equivale a alguns milhares de reais. Com um custo aproximado de R$ 500 mil para ser construído, o RPCI pode, facilmente, ser colocado em um caminhão e transportado para maratonas de reciclagem por todo o Estado.
 
Pode não parecer diferente de girar tudo isso num liquidificador potente, mas cortar centenas de placas de circuito em milímetros ou mesmo pó exige lâminas especiais. Além disso, as esteiras, peneiras e outras partes da máquina já separam o metal, deixando-o pronto para ter o ouro retirado.
 
Sabe aquelas lâmpadas queimadas, ou quebradas, que dão um trabalhão para jogar fora? Bom, elas não têm ouro, mas podem ajudar a trazer algum conforto extra para sua casa. Dois trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo envolvem usar o vidro de lâmpadas fluorescentes e tubos de televisores antigos para produzir uma tinta especial, reflexiva. O vidro triturado e tratado pode ser incorporado à fórmula da tinta, e depois que está na parede, reflete parte dos raios solares. Que tal pintar sua casa com uma tinta que diminui em até 5°C a temperatura da parede? De quebra, você já se livra das lâmpadas queimadas.
 
Outro projeto do Núcleo é usar as partes plásticas dos aparelhos, com a finalidade de gerar energia para pequenas empresas. Uma vez triturado e processado, o produto nomeadoPetroplástico pode virar combustível para pequenas termoelétricas. 
 
Relação com o mercado
Apesar de estar baseado na UFMT, o Núcleo não restringe suas atividades à Universidade. O professor busca parceiros em outras entidades, como o Senai e demais instituições de ensino superior, desde que possuam parques tecnológicos avançados. Outras parcerias essenciais são com empresas privadas. “As públicas são muito complicadas, muito difíceis. Junto com a iniciativa privada, o cara vai e faz. Pronto, está feito, é muito mais rápido”.
 
Segundo Einstein, o termo Economia Verde se refere a uma atividade econômica, e, portanto, deve gerar renda. Focando em uma pesquisa dentro da Universidade que possa gerar, de fato, benefícios sociais, ambientais e econômicos, ele vê a expansão das parcerias para além dos muros como algo positivo e desejável. Um dos parceiros na produção do RPCI, e que hoje guarda o equipamento, é a Recyclart, de Carlos Israilev.
 
 
À esquerda, Carlos Israilev, um dos parceiros no projeto
[Foto: Daniel Morita]
 
Mesmo adotando parcerias externas, Einstein ainda encontra dificuldades de financiamento. “Mato Grosso é um grande produtor agrícola, o celeiro do país. Isso deveria ser uma mina de ouro. Mas mesmo nas pesquisas que podem beneficiar os agricultores, o investimento em inovação é muito pequeno”, conta ele, criticando a falta de investimentos de vários setores da sociedade na inovação tecnológica.
 
Exceto alguns bolsistas, a equipe do Núcleo muda muito de acordo com a fase de desenvolvimento em ação. Seguindo uma lógica mais próxima do mercado, Einstein altera seu pessoal frequentemente, buscando as pessoas mais adequadas para cada situação momentânea. “Um problema comum é a falta de pessoal qualificado. Se não houvesse a carência, o processo de produção seria mais ágil”. Talvez esse possa ser um caminho para a produção e inovação tecnológica, a expansão das parcerias e procedimentos da academia.
 
Imagem de capa: Página da Recyclart no Facebook
Daniel Morita



Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

correio
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10459:manchete280115&catid=34:manchete

Cidadão é o maior penalizado por 20 anos de gestão irresponsável da água em SP

ImprimirE-mail
ESCRITO POR MARCELO POMPÊO   
TERÇA, 27 DE JANEIRO DE 2015


Desde o final de 2013, a população paulistana tomou ciência da restrição hídrica que se aproximava, decorrente da falta de chuvas e dos baixos níveis de água nos reservatórios empregados no abastecimento público. Já em 2014, assistimos atônitos aos recordes e mais recordes de baixos níveis de água nos reservatórios. Agora, no início de 2015, essa situação segue pior ainda, com perspectivas sombrias para o restante do ano. Mas são inúmeras as cidades do interior de São Paulo atingidas pela falta de água, inclusive em outros estados. No presente, a falta de água não é mais gritante, pois na cidade de São Paulo os cidadãos dão sua cota de colaboração, reduzindo o consumo como podem. Do contrário, o poço já teria secado.

Esta grave crise serviu para mostrar que a lição de casa não foi feita e, seja para o município, para o estado ou mesmo para a União, muita coisa tem que mudar a partir deste triste cenário. Ficou claríssimo para quem quer ver que nossas leis e a gestão das águas não são satisfatórias e a condução política não preserva o cidadão e o meio ambiente, ao menos na oferta do serviço público, como da água tratada de qualidade e na quantidade adequadas.

Nestes últimos 20 anos, o Estado não planejou e se preparou adequadamente e o cidadão será penalizado por não ter água necessária aos seus usos históricos e culturais. É novamente penalizado por ter que pagar a conta, através de multas e/ou elevação de tarifas e, eventualmente, será mais penalizado ainda por ter seu consumo medido pela média de 2014 (medida em estudo pelo governo estadual). Uma média, sem dúvida, fora do padrão histórico de consumo de cada família, já que foi em 2014 que o cidadão ativo reduziu o consumo. E, por fim, o cidadão é o maior penalizado, pois caberá a ele a maior parcela de contribuição, seja financeira ou de restrição hídrica.

Entre outros prejuízos, soma-se a menor quantidade de água para a indústria e agricultura, que sem dúvida impactará o emprego, renda e os preços, principalmente dos produtos originados do setor agrícola. Na questão da gestão das águas, chegamos ao fundo do poço. Se ficou alguma coisa de bom, é que a população sabe fazer a sua parte.

Um país com cerca de 12% da água doce superficial do mundo, apesar de não tão bem distribuída pelo território nacional, não pode desconsiderar planejamento no curto, médio e longo prazos. Ainda mais tendo nosso país sólida tradição de pesquisas nas áreas de hidrologia, hidráulica, recursos hídricos (aspectos qualitativo e quantitativo), ecologia, limnologia, saneamento, legislação ambiental, por exemplo, com excelentes universidades, centros e grupos de pesquisas, além de recurso financeiro suficiente, como uma das maiores economias do mundo.

Portanto, não necessitamos importar especialistas para nos dizer como fazer, mas trocar experiências é sempre importante. Nossos técnicos são bem formados e sabem fazer, quando a eles é passada a tarefa. Daí concluir que o modo de gerir a questão das águas no Brasil não está baseado primeiramente em premissas científicas, na pesquisa estruturada, na consulta ao corpo técnico, ou mesmo em questões de sustentabilidade e meio ambiente, mas, sim, deixa transparecer que são decisões meramente políticas.

Mas não transparecem ser decisões políticas como parte de um claro plano de governo, aberto, transparente, escrito e em diálogo com a sociedade. Neste momento de crise, o que compreendemos das declarações de muitos técnicos do setor, especialistas, gestores e políticos ligados ao tema, divulgadas pelos diversos meios de comunicações, deixa claro que são sempre decisões tomadas de última hora, pontuais e emergenciais, torcendo para Deus ser brasileiro, esperando por São Pedro fazer o seu serviço ou culpando a natureza, mesmo quando “trabalhamos sem parar” (1). São apresentadas soluções imediatistas tal como puxadinhos, remendos, colcha de retalhos ou tapa buracos, como a retirada de um primeiro volume morto, depois de um segundo, seguindo para um terceiro e derradeiro volume morto (se necessário), seja de um reservatório e depois de outro e mais outro, torcendo pelas chuvas, que chegaram, mas de pequena intensidade.

Se não der certo, e não chover, o reservatório da vez será a Billings. Há também de se manter o rio Pinheiros com águas altas e as comportas fechadas, no Cebolão, junto ao rio Tietê, para reverter suas águas ao reservatório Billings, mas também para gerar hidroeletricidade em Henry Boarden, na Baixada Santista, quem sabe contribuindo para evitar outro apaguinho/blecaute. De outro rio retira-se mais 0,5 m3/s. Outra ideia é interligar os mananciais, para retirar água de dado reservatório na medida da necessidade, enquanto se reduz em outro. E como recentemente declarou o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o Prof. Dr. Benedito Braga, em seis meses não é possível fazer obras da envergadura adequada ao problema.

Durante 2014, nosso governador, pessoalmente, sempre reforçou que não teríamos problemas, pois as chuvas logo estariam aí e tudo se resolveria. As chuvas ainda não chegaram, ao menos onde deveriam. Há planos de retirar águas do rio Ribeira de Iguape e autorização para captar água do Paraíba do Sul. Outra opção, na gestão da crise do abastecimento público, é reduzir a pressão na rede de abastecimento, ou mesmo cortar de vez o abastecimento, com rodízio entre setores da cidade, que podem ter água em certos dias e horários da semana, como forma de reduzir o volume de água ofertada e refletir na redução do consumo.

Correm no meio da cidade importantes rios como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, por exemplo, esgotos a céu aberto, não sendo possível empregar suas águas nem mesmo para a rega de parques e jardins, quanto mais para o consumo humano. Não há efetiva e substancial captação de água de chuva para emprego no abastecimento púbico. Há praticamente 30% de fuga da água limpa que percorre as tubulações até chegar em nossas casas. Isso sem falar da descaracterização total do ecossistema reservatório, com as comunidades biológicas constituintes mortas ou substituídas, decorrente da quase seca total do reservatório, como se de fato o reservatório fosse unicamente uma caixa de água, não mais um estabelecido ecossistema, com estrutura, função e dinâmica próprias, e prestando inúmeros e importantes serviços ecossistêmicos.

E nem mesmo há reconhecimento oficial formal de que estamos em período de forte restrição hídrica e de racionamento. Isso tudo é a política de Estado para a gestão dos recursos hídricos para abastecimento público em São Paulo? Esse é o plano de governo para a gestão das águas no estado? Vale lembrar que somente a Região Metropolitana de São Paulo é composta de quase 20 milhões de habitantes e qualquer coisa para atender a demanda desse universo de pessoas não pode ser realizada sem planejamento adequado.

Segundo Brasil (2003) (2), os sistemas de abastecimento de água devem ser dimensionados para atender às necessidades de água da região beneficiada. Ainda, segundo esse mesmo documento, é importante que as projeções das necessidades e as disponibilidades dos recursos hídricos, em função do aquecimento da economia e do crescimento demográfico, sejam calculadas com antecipação.

Os sistemas devem ser planejados, arquitetados e construídos, para funcionarem durante muito tempo sem riscos de deterioração. Apesar disso, as atividades de monitoramento do sistema, buscando detectar, no mais curto espaço de tempo, possíveis problemas ou defeitos, são de importância capital, para garantir a retroalimentação sistêmica, relacionada com as atividades de manutenção. Estas são as premissas do plano de governo que vivenciamos em São Paulo?

Sendo urgente despender esforços para equacionar questões relativas à manutenção da qualidade e quantidade da água nos mananciais e visando minimizar os problemas relacionados ao abastecimento público e esgotamento sanitário nos grandes centros urbanos e garantir mananciais mais saudáveis para gerações futuras, são propostas (3):

a)  nenhuma entidade federal, estadual, municipal ou privada poderá captar qualquer quantidade de água bruta sem a aprovação prévia dos órgãos competentes;

b)  toda entidade federal, estadual, municipal ou privada terá o prazo máximo de cinco anos para regularizar e cadastrar seu sistema de captação de água bruta em operação, atendendo normas estabelecidas pelas diferentes esferas de governo; no caso de descumprimento, ficará definida multa diária;

c)   definir em lei a quantidade máxima de água bruta que poderá ser captada, com base na quantidade – vazão e carga retiradas, levando em consideração a vazão e carga do manancial (rio) e a recarga de lagos e reservatórios, discriminando responsabilidades e sanções quando do seu descumprimento;

d)  o não cumprimento das normativas apresentadas nos itens anteriores implicará em não ter analisadas novas solicitações de captação, até a regularização da atual situação; 
e)   a obrigatoriedade definida em lei que, para cada metro cúbico de água potável ofertada à população, seja definido em projeto a respectiva coleta e tratamento da água servida. A oferta de água potável e coleta e tratamento do esgoto gerado devem ser entendidos como um sistema único, integrados e indissociáveis, implicando que sejam considerados conjuntamente no planejamento, implantação e solicitação de recursos, com pena de não ter aprovada a proposta de captação de água bruta;

f)    definir em lei o limite máximo de 10% para a fuga de água, implicando em multas e sanções quando do seu não cumprimento; para tanto será obrigatória a implantação de sólido programa de monitoramento de perdas e controle da água ofertada;

g)  a obrigatoriedade definida em lei para que, no prazo máximo de dez anos, todo esgoto gerado seja efetivamente coletado e tratado (descarte zero), definindo severas sanções às diferentes esferas de governo e seus dirigentes quando da não observância da lei;

h)  empreendimentos já instalados têm o prazo de dez anos para se integrarem à rede coletora de esgotos; após esse prazo, serão integrados compulsoriamente, arcando com os custos de instalação, somados às despesas de multas e custos processuais;

i)    definir em lei que novos empreendimentos somente serão aprovados para uso após serem definitivamente integrados à rede coletora de esgoto;

j)    definir em lei prazos para a instalação de sistemas de tratamento e descarte de lodo, proveniente das estações de tratamento de água para o abastecimento público (ETAs) e das estações de tratamento de esgotos (ETEs), com definições de responsabilidades, sanções e multas quando do seu não cumprimento;

k)  definir em lei que novos empreendimentos (condomínios, museus, clubes, estádios, escolas, shopping centers, parques temáticos, indústrias, hospitais, hotéis, motéis, restaurantes, casas de espetáculos e de exposições e outros estabelecimentos comerciais e empreendimentos de grande porte público e privado, com base na área física instalada e no número de pessoas atendidas) implantem sistema de reuso de água, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

l)    definir que estes mesmos empreendimentos também implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

m)             definir em lei o prazo de dez anos para que empreendimentos já instalados (ver item k) implantem sistema de captação de água de chuva, com prazos de instalação e projetos aprovados por órgãos competentes;

n)  cobrar de modo diferenciado e escalonado, segundo o consumo de água: quanto mais consome, mais paga, garantindo uma tarifa social mínima de ao menos 110 litros/habitante/dia;

o)  instalar medidores de consumo de água individuais – uma casa, um medidor de consumo;

p) empreender esforços visando ampliar o controle e a vigilância da qualidade da água pelos órgãos responsáveis pelo abastecimento e por órgãos de saúde pública, da água bruta à torneira para o consumidor final;

q)  empreender esforços em todos os níveis, com campanhas educacionais sobre a importância da água, seu uso racional, a preservação de sua qualidade e quantidade;

r)   empreender esforços em campanhas educacionais relacionadas à saúde pública, reforçando a importância de hábitos simples, como lavar as mãos com sabão após usar o banheiro e antes das refeições;

s)   estabelecer que estado e prefeitura obrigatoriamente implantem secretaria de meio ambiente e de saneamento;

t)    definir que toda a secretaria de estado (federal, estaduais e municipais), de meio ambiente e de saneamento, deva manter site atualizado, com as ações empreendidas e metas para o sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

A intervenção divina não nos trará a água desejada e necessária. Caberá ao homem planejar e vislumbrar cenários futuros, corrigindo distorções no curso dos acontecimentos.
Notas:
(1) - Declaração do Governador Geraldo Alkmin, Folha de São Paulo, de 25 de Janeiro de 2015. Caderno Cotidiano.
(2) -  BRASIL, Ministério da Integração Nacional. (MI). Secretaria Nacional de Defesa Civil. (SEDEC), Manual de desastres humanos: desastres humanos de natureza tecnológica – v. 2. – I parte / Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil. – Brasília: MI, 452p, 2003.
(3) - Marcelo Pompêo & Viviane Moschini-Carlos, O abastecimento de água e o esgotamento sanitário: propostas para minimizar os problemas no Brasil, In: André Henrique Rosa, Leonardo Fernandes Fraceto, Viviane Moschini - Carlos, Meio Ambiente e Sustentabilidade, Porto Alegre: Bookman Companhia Editora Ltda., 2012.

Marcelo Pompêo é professor do departamento de Ecologia da USP.

O que Dilma não disse, mas poderia falar sobre a crise hídrica

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539342-o-que-dilma-nao-disse-mas-poderia-falar-sobre-a-crise-hidrica


O que Dilma não disse, mas poderia falar sobre a crise hídrica

"Neste momento em que a crise hídrica impacta uma população estimada de 46 milhões de brasileiros, qualquer manifestação propositiva da maior autoridade da República seria muito bem-vinda", escreve André Trigueiro, jornalista, em artigo publicado no Portal G1, 26-01-2015.
Eis o texto.
"Minhas amigas e meus amigos,
Como se sabe, o Brasil vem enfrentando uma das piores estiagens de sua história, especialmente na região Sudeste, a mais rica e populosa do país.
Acompanhamos de perto a evolução dos acontecimentos nos estados e municípios castigados pela seca, sempre respeitando a autonomia federativa que confere a governadores e prefeitos, dependendo da localidade, a gestão dos recursos hídricos.
De nossa parte, monitoramos a situação dos rios federais que atravessam mais de um estado, como é o caso do Paraíba do Sul, que corta os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Apesar de o país dispor de uma Lei Nacional de Recursos Hídricos, da Agência Nacional de Águas, dos Comitês de Bacias Hidrográficas e de outros instrumentos de gestão e governança, este governo entende que é preciso fazer mais. Nesse sentido, a atual crise hídrica representa uma excelente oportunidade para avançarmos ainda mais na direção de um modelo mais inteligente e eficiente de gerenciamento de recursos hídricos.
Decidimos, portanto, tomar as seguintes providências:
- Estou instituindo um Conselho de Notáveis com os mais prestigiados hidrologistas, cientistas e representantes das mais importantes instituições de pesquisa e universidades brasileiras (com pessoas de todos os estados) para que possam instruir o governo sobre como tornar o Brasil não apenas o país com o maior volume de água doce superficial de rio do mundo, mas também o mais eficiente no uso dessa água. Nosso compromisso é o de ampliar este debate com consultas públicas e trabalhar pela implementação das medidas sugeridas ainda este ano.
- Instruí o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, a convocar representantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Agência Nacional de Águas (ANA) para que reapresentem as críticas formuladas por essas instituições contra o novo Código Florestal, no que se refere aos riscos que ele representaria às bacias hidrográficas. Em se confirmando que as alterações aprovadas pelo Congresso no texto original dessa lei carecem de estudos devidamente embasados sobre o seu impacto na resiliência dessas bacias, meu compromisso é o de mobilizar todos os esforços possíveis no sentido de reabrir o debate e, se for o caso, defender uma nova mudança na legislação.
- Ordenei ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que apresente no prazo de uma semana propostas de novos estímulos fiscais a produtos e serviços que promovam a drástica redução do consumo de água e energia nos mais diversos setores da economia. É preciso elevar os parâmetros já existentes e apoiar quem já investe em inovação.
- Determinei à ministra da Agricultura Kátia Abreu que realize um amplo levantamento das técnicas mais eficientes no uso de água pelo setor agrícola. Aproximadamente 70% das águas doces em nosso país são usadas nas lavouras, nem sempre com o devido cuidado ou orientação. O Brasil não pode continuar promovendo o uso perdulário de água nas irrigações com a utilização de pivô central, aspersores ou culturas de inundação, para citar apenas alguns exemplos de técnicas que já estão sendo abandonadas em muitos países. Há muito o que se avançar neste setor e pretendo ainda neste governo condicionar a concessão de crédito agrícola à eficiência no consumo de água no campo.
- Encomendei ao ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Armando Monteiro, um estudo identificando quais os empreendimentos que mais consomem energia elétrica hoje no país. Nossa intenção é condicionar a liberação de recursos públicos, via Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou outros órgãos de fomento públicos, à apresentação de planos que confirmem a disposição desses setores em serem exemplos de eficiência e inovação.
- Declaro que este governo apoiará ostensivamente a ampla disseminação da água de reúso em todo o território nacional. Instruí o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu, a realizar os esforços necessários para a tão esperada regulamentação técnica da água de reúso, definindo seus parâmetros e características para que não haja mais nenhuma hesitação do mercado em investir nessa direção. Queremos apoiar todas as atividades que utilizem água de reúso em suas rotinas.
- É nosso desejo que todas as companhias públicas ou privadas de água e esgoto no país sejam mais eficientes. Não é possível que registremos em média 37% de perdas de água potável nas redes, desperdiçando preciosos recursos públicos. Para estimular a maior eficiência do setor, pretendemos condicionar a liberação de recursos federais à redução dessas perdas no sistema. Acertaremos caso a caso quais são as metas possíveis e aplicaremos as novas regras de financiamento.
- Este governo deverá encaminhar ao Congresso, logo após a votação para a Presidência da Câmara e do Senado, um projeto de lei determinando a criação de linhas especiais de crédito para todas as construções que sejam comprovadamente eficientes no consumo de água e energia elétrica, e que possuam certificações reconhecidas internacionalmente.
Encerro meu pronunciamento reconhecendo que esta terrível estiagem nos estimula a sermos ainda mais propositivos naConferência do Clima, que terá lugar em dezembro em Paris. Infelizmente, ao que tudo indica, eventos extremos como esse poderão ser tornar cada vez mais frequentes em função das mudanças climáticas. Mas é meu dever, enquanto Chefe de Estado da maior potência "mega biodiversa" do planeta, preparar o país para qualquer um dos cenários previstos pelos cientistas. Sinto-me pronta para esta missão.
Convoco todos os brasileiros a unirem forças em favor das nossas águas – o bem mais precioso e indispensável à vida, sem o qual nenhuma atividade humana é possível – que a natureza generosamente nos proporcionou e que mantêm o Brasil em condição ainda invejável perante o mundo neste século XXI.
Boa noite."
OBS: A Presidente Dilma não escreveu esse discurso. Mas neste momento em que a crise hídrica impacta uma população estimada de 46 milhões de brasileiros, qualquer manifestação propositiva da maior autoridade da República seria muito bem-vinda.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

'A internet desaparecerá', diz diretor-executivo do Google em Davos

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/539290-a-internet-desaparecera-diz-diretor-executivo-do-google-em-davos


'A internet desaparecerá', diz diretor-executivo do Google em Davos

Em meio a tantas novidades tecnológicas e um crescimento constante no setor, o diretor-executivo do Google, Eric Schmidt, se arriscou em apontar um provável futuro para a internet: "Ela desparecerá", afirmou Schmidt no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suiça), nesta quinta-feira (22) .
A reportagem foi publicada pelo Portal Uol, 24-01-2015.
Mas a previsão do representante do buscador não é um alarme. Ele acredita que no futuro a internet estará tão integrada ao dia a dia da população que não fará sentido pensar em uma vida desconectada, ou seja, teremos um novo conceito de internet e de como ele será empregada na rotina.
"Existirá tantos endereços de IPs [espécie de endereço do computador], dispositivos, sensores, coisas que você estará vestindo e interagindo, que não perceberá", disse Schmidt.
A declaração do diretor-executivo foi feita durante o painel "O futuro da economia digital". Também participaram da discussãoSheryl Sandberg, do FacebookJim Hagemann Snabe, da Sap, e Satya Nadella, da Microsolft.
Schmidt ainda disse que viveremos em um mundo muito mais interativo, interessante, no qual poderemos personalizá-lo. "Você entrará em uma sala e com sua permissão interagirá com tudo o que acontece com ela. Fará parte de nós".