quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Amazônia morre e os jornais não veem

fone - observatório da imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed674_a_amazonia_morre_e_os_jornais_nao_veem


MÍDIA & MEIO AMBIENTE

A Amazônia morre e os jornais não veem

Por Leão Serva em 27/12/2011 na edição 674
Reproduzido da seção “Tendências/Debates” da Folha de S.Paulo, 20/12/2011; intertítulo do OI
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Dados preliminares sobre o desmatamento foram vistos como “boa notícia”, mas só mostram que o tumor causou a amputação de parte menor. A Amazônia tem câncer e a opinião pública brasileira não sabe por que a imprensa está míope. Nos últimos dias, dados preliminares de desmatamento da região foram anunciados como “boa notícia” ao mostrar que a destruição reduziu velocidade, quando apenas querem dizer (se comprovados) que o tumor causou a amputação de parte menor do corpo.
Enquanto governo e imprensa fazem festa, o paciente morre. Procedimentos essenciais do jornalismo determinam a desinformação sobre o desaparecimento da maior floresta do mundo. Um exemplo: no dia 16/10, a Folha deu manchete para um inédito levantamento de todas as obras de infraestrutura do PAC para a Amazônia. A reportagem saiu em “Mercado” e pela primeira vez foi possível ver que está em curso uma série de obras com dinheiro da União que, tantas sendo, não podem ser benignas numa floresta atacada há 40 anos. Mas, como o jornal é dividido em editorias e as notícias devem se submeter a elas, a mesma edição do jornal revelava na editoria “Ciência”, páginas distante, que o “país faz mais obras mas diminui gasto com conservação”.
A separação das notícias tira do leitor a capacidade de entender fatos complexos, como o atual processo de destruição da Amazônia. O fracionamento faz com que a tramitação do Código Florestal no Congresso seja tratada em páginas de política; obras de infraestrutura na Amazônia, em economia; o ritmo da devastação florestal, em ciência; as mudanças dramáticas no clima amazônico, em meteorologia.
Estabilizar o desmatamento
O ineditismo do levantamento da Folha é prova de omissão frequente da nossa imprensa: não ligar notícias de um dia com o passado. No caso das obras na Amazônia, os jornais nunca somam o impacto de obras já inauguradas com as que são anunciadas. O governo se aproveita da miopia: jamais anuncia dois projetos ao mesmo tempo, diluindo o impacto de cada um. O próprio índice percentual de destruição total da floresta (estimado pelo Inpe pela análise de fotos de satélites do programa Prodes) é tema de confusão. O órgão divulga a cada ano quatro levantamentos de satélites diferentes, com dados às vezes contraditórios. Neste ano, os alertas de incêndio e desmatamento dos programas Deter e Degrad indicaram um aumento da degradação, mas os dados preliminares de desmatamento total revelam redução da velocidade de destruição.
Dois defeitos se repetem anualmente na divulgação dos dados do Inpe: (a) ao divulgar percentuais, o instituto esconde a soma dos valores absolutos de desmatamento já acumulado; (b) o noticiário não junta os dados dos programas que medem destruição total (Prodes) e degradação grave (Deter e Degrad), que poderiam revelar à opinião pública o ritmo assombroso da destruição da Amazônia. Quanto ao primeiro defeito: segundo o Inpe, o desmatamento acumulado das áreas ocupadas por floresta em 1988 é de 18% (ou seja, quase 1/5 da maior floresta do mundo sumiu em 23 anos)! A segunda questão é mais dramática: a cada hectare inteiramente desmatado, outro sofre degradação irreversível.
Ou seja, em 23 anos, o processo de destruição da floresta (desmatamento total e degradação grave) já amputou cerca de 35% da floresta, aproximando-se da previsão, que parecia apocalíptica nos anos 1980, de que a floresta amazônica poderia desaparecer em 50 anos.
A confusão de índices de desmatamento é semelhante à cobertura da inflação anos atrás: em 1989, uma redução da alta de preços de 80% para 20% seria notícia boa se o índice tendesse a zero, o que se deu com o Plano Real, em 1994. Já a destruição da Amazônia não tem Plano Real à vista: o governo federal quer estabilizar o desmatamento em 5 mil km²/ano, área de três cidades de São Paulo.
Assim, de “boa notícia” em “boa notícia”, a floresta morre.
***
[Leão Serva, jornalista, ex-secretário de Redação da Folha de S.Paulo (1988-92), é autor de Jornalismo e Desinformação (Editora Senac)]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Fotografia Ambiental 2011 - Retrospectiva

fonte - o eco
http://www.oeco.com.br/foto/25550-fotografia-ambiental-2011-retrospectiva



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2011 foi um ano em que lindas e reveladoras fotografias passaram pelas páginas de ((o))eco.

Abrimos o ano com um tradicional balanço por nosso colunista de fotografia Adriano Gambarini, que aliás andou visitando algumas onças recentemente .

Seguimos com as fotos aéreas de Margi Moss e o alerta sobre as águas do rio Juruena. Thomas Muller mostrou as Cenas da Rotina Amazônica

Haroldo Campos explorou as Luzes da África e fez uma série especial em 6 episódios para os leitores de ((o))eco.

Este também foi a ano valorizamos a Amazônia com nossos parceiros do Finding Species, mas não faltou fotos do Pantanal, através das lentes de Palê Zuppani e Daniel de Granville. Não faltou o Cerrado e a Mata Atlântica

Um novo recruta do time de colunistas de ((o))ecoVictor Moriyama explorou questões urbanas.

Talentos até então desconhecidos do grande público também abrilhantaram a página de fotografia de nosso site. Confira a seleção abaixo, mas não deixe de visitar as nossas seções de fotografia.



Gestão territorial indígena promete conservação

fonte - o eco
http://www.oeco.com.br/reportagens/25553-gestao-territorial-indigena-promete-conservacao?utm_source=newsletter_276&utm_medium=email&utm_campaign=hoje-em-o-eco-26-de-dezembro-de-2011


No fim de novembro, 13 etnias indígenas se encontraram no município de Poconé (MT), ao sul de Cuiabá, para trocar experiências a respeito de planos de gestão territorial. Foto: Laercio Miranda / OPAN
Poconé - “Depois do contato, não tem como viver totalmente no modo tradicional”, afirma Chicoepab Suruí, habitante da Terra Indígena Sete de Setembro, no limite entre Mato Grosso e Rondônia. Chicoepab poderia usar sua própria história para ilustrar a frase: com duas graduações, em filosofia e em gestão ambiental, ele hoje cursa o mestrado na Universidade de Brasília, dividindo seu tempo entre os estudos e a manutenção do website de seu povo, entre outras funções assumidas numa das associações suruí.

Fugindo dos brancos, os Suruí, ou Paiter (como eles mesmos se denominam), foram aos poucos se deslocando, desde o século XIX, a partir de Cuiabá até a região onde hoje se encontram. Fixados ali desde 1969, eles são um dos povos que hoje se lançam à estratégia de incorporar formas de interagir econômica e politicamente com os não-índios.

Uma das questões mais controversas é a conservação ambiental. Agora restritos a territórios demarcados, e com a população em crescimento, os índigenas buscam modos de gerir os recursos disponíveis em seus territórios sem os super-explorar, ao mesmo tempo em que lidam com constantes ameaças de invasão e de impacto de diversas atividades, da pecuária e monocultura de soja à construção de hidrelétricas.

É nesse contexto que têm surgido iniciativas de construir Planos de Gestão dos territórios indígenas. Os planos são feitos pelos próprios povos em parceria com ONGs e expressam o desejo de seus formuladores de conservar a floresta: é a maneira de conservar, ao mesmo tempo, seus modos de vida e concepções de mundo particulares.

Os Paiter dizem que eram 5 mil pessoas antes de 1969. Dois anos após o contato, enfrentando epidemias de sarampo e tuberculose, eles estavam reduzidos a 290 pessoas. Seu território foi invadido por colonos, madeireiros, palmiteiros, caçadores e pescadores, e eles perderam grandes extensões de terras. Muitos foram, desde então, aliciados por invasores não-índios para permitir sua entrada e a exploração dos recursos da floresta, como a retirada de madeira.

Em seu plano de gestão, formulado para durar 50 anos, os Paiter se preocuparam em retomar sua organização política tradicional, fundada na existência de um líder maior, um conselho de anciãos e um conselho de representantes de cada clã. Por outro lado, estão formulando, entre outros, um projeto de geração de créditos de carbono a partir da conservação e da restauração de áreas desflorestadas. Os recursos financeiros adquiridos com o projeto irão para um fundo usado para atender às suas necessidades coletivas.


Acordos e necessidades

Índigenas avançam na integração com economia brasileira: os Suruí, em Rondônia, lançaram projeto para gerar créditos de carbono com a floresta em pé. Foto: Laercio Miranda / OPAN
No fim de novembro, 13 etnias indígenas se encontraram no município de Poconé (MT), ao sul de Cuiabá, para trocar experiências a respeito de planos de gestão e outras maneiras de enfrentar esses problemas, no seminário “Gestão Territorial Indígena”, organizado pela ONG indigenista Operação Amazônia Nativa (Opan). Se, de um lado, os indígenas têm se mostrado dispostos a encontrar maneiras de gerir internamente os recursos naturais em seus territórios, por outro ficou patente na discussão o descaso do Estado brasileiro em enfrentar problemas que estão sob sua responsabilidade, como o atendimento médico nas aldeias.

O Plano de Gestão Territorial Paumari do rio Tapauá (povo habitante de três terras indígenas contíguas no sul do Amazonas), por exemplo, está dividido em duas partes: uma diz respeito a “acordos” a que os paumari chegaram sobre como manejar o território, enquanto a outra contém “necessidades” identificadas pelos paumari principalmente em sua relação com instituições não-índias.

Entre os acordos estão estímulo à preservação da medicina tradicional, regras para o tratamento do lixo e para o manejo pesqueiro, da caça e da coleta. As necessidades incluem reivindicações com relação à saúde e educação, além de apoio para vigilância do território e necessidades de infraestrutura (como energia elétrica e telefone). “É importante ter uma regra, para pensar como a gente pode fazer para que o peixe e a madeira não fiquem difíceis depois. Com o planejamento, a gente pensa no futuro”, disse Clemildo Paumari durante a apresentação do plano de seu povo, no seminário.

"Funai, Ministério do Meio Ambiente e Articulação dos Povos Indígenas formularam uma Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. A minuta do decreto aguarda a assinatura de Dilma Roussef."
“O Estado tem que garantir as condições de existência das populações, mas as comunidades também podem buscar meios de existir de forma a gerir seus recursos de forma mais independente”, opina Ricardo Verdum, assessor político do Inesc especializado em política indígena. O projeto de geração de créditos de carbono suruí é um exemplo, mas outros povos, como os Zoró (seus vizinhos na fronteira entre Mato Grosso e Rondônia), estão apostando no comércio de castanha e da seringa, por exemplo, para gerar recursos que permitam essa maior autonomia.

Política nacional

Um grupo de trabalho composto por Funai, Ministério do Meio Ambiente e APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) formulou entre 2009 e 2010 uma Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). A minuta do decreto está pronta, aguardando a assinatura da presidente Dilma Roussef.

O envolvimento do governo, por sua vez, estimula a desconfiança de Zé Ângelo Nambikwara, estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Mato Grosso e um dos participantes do evento em Poconé. “A questão da gestão territorial, do meu ponto de vista, é uma catequese econômica. Apertando o indígena dentro do espaço dele, o próprio índio vai legitimar uma estratégia para criar uma forma de desenvolvimento dentro do seu território”, questiona.

As propostas de desenvolvimento econômico, para Zé Ângelo, exigem atenção redobrada, justamente porque são fruto de decisões dos próprios indígenas. “O governo não vai fazer”, diz Zé Ângelo. “Ele vai pressionar o índio a criar uma atividade econômica dentro da própria área dele. A intenção é que a gente possa sobreviver financeiramente. Mas na hora em que a gente for reclamar, o governo diz: vocês que fizeram”.

Atlas de pressões e ameaças sobre as Terras Indígenas. Clique para baixar PDF

Áreas bem protegidas

Dentre as Áreas Protegidas da Amazônia Legal brasileira, as Terras Indígenas (TIs) são as que têm menos áreas desmatadas em seu interior (1,5%). Mesmo as Unidades de Conservação de Proteção Integral, que em teoria não permitem a presença de humanos, a não ser com objetivos de pesquisa ou turismo, têm maior desmatamento acumulado até 2010, chegando a 2,1%. Nas Unidades de Conservação de Uso Sustentável (excluídas as APAs), o porcentual de terras desmatadas chega a 3,7%.

Os dados são do livro “Áreas Protegidas na Amazônia Brasileira – avanços e desafios”, do Imazon e Instituto Socioambiental, publicado em março deste ano, e compreendem um período que vai de 1998 até 2009. Segundo o estudo, na Amazônia brasileira existem 414 TIs, somando 1.086.950 km2, área que representa 98,6% da extensão de TIs no país e 21,7% do território amazônico. Elas são lar para 173 diferentes povos, com uma população que soma cerca de 450 mil pessoas.


Jornalista e antropólogo, escreve sobre meio ambiente e povos indígenas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Amazônia: balancete ambiental 2011

fonte - o eco
http://www.oecoamazonia.com/br/artigos/9-artigos/365-amazonia-balancete-ambiental-2011?utm_source=newsletter_270&utm_medium=email&utm_campaign=hoje-em-o-eco--16-de-dezembro-de-2011

As muitas Amazônias. Imagens: Karina Miotto
Perguntaram-me quais são, em minha opinião, os destaques ambientais de 2011 para a Amazônia. Não gosto fazê-lo, pós, o resultado nunca é bom. Mas, é necessário cumprir com esse ritual anual já que, caso contrário, a propaganda triunfalista dos governos, em especial a do brasileiro por acolher a Rio+20, faz esforços para mostrar que a casa está em ordem e que a situação está melhorando. Obviamente, isso está muito longe de qualquer verdade. Os resultados do balancete ambiental amazônico são ano após ano piores. Algumas eventuais e muito divulgadas melhorias são apenas fruto de que o fato é “menos ruim” do que se esperava.

Em outubro, cerca de um milhão de pessoas se uniram aos indígenas bolivianos em La Paz. Foto: Hoy Bolívia
"Algumas eventuais e muito divulgadas melhorias são apenas fruto de que o fato é 'menos ruim' do que se esperava."
Não se trata, nesta breve nota, de revistar todos e cada um dos inúmeros temas cabíveis. Apenas mencionarei alguns mais importantes. Faço referência à decisão, forçada pelos indígenas bolivianos, de não construir o segmento da estrada Villa Tunari e San Ignacio de Mojos, que permitiria a invasão das terras ancestrais por cultivadores de coca e a destruição desse importante refúgio de diversidade biológica. Também incluo o êxito da luta dos indígenas peruanos, especialmente os Ashaninka, que afastaram temporariamente grandes investidores brasileiros que, através das suas empreiteiras, pretendiam construir uma série de barragens social e ambientalmente devastadoras na Amazônia sul do Peru. O terceiro fato foi a majoritária decisão dos cidadãos do Pará, Brasil, que em plebiscito evitaram a manobra para dividi-lo em três novos estados, com gravíssimas consequências negativas para o meio ambiente. O mais triste é que dois desses sucessos se devem muito mais o uso da força que ao da razão, a que si primou no terceiro. Não sei o que mais pode ser mencionado. Dos acontecimentos realmente importantes, só ficam fatos para criticar.

Exploração dos recursos naturais

O desmatamento continuou igual. O Brasil anunciou uma redução importante do desmatamento em 2011, porém os fatos mais recentes estão desvirtuando parte substantiva das pretensões publicadas. O desmatamento pode ser maior ou menor, um ano ou outro, em função de conjunturas econômicas ou climáticas. No entanto a tendência continua sendo a mesma, ou seja, desmatamento e degradação de florestas em aceleração contínua e sem trégua, na base de mais e mais quilômetros de estradas novas ou “melhoradas” que com a pretensão de unir polos de desenvolvimento e de integrar a região, acessam valiosa madeira de lei, novos lotes petrolíferos, mais áreas de garimpo e, sem dúvida, muita terras para “desbravar”, semeando soja transgênica ou pasto para mais gado de corte. Nos países andino-amazônicos, a extensão de terra abandonada ou degradada, sem uso, continua crescendo sem que os governos façam nada para aproveitá-la ou para restaurá-la.

A exploração anárquica de ouro, nesta década, já não é privilégio de Madre de Dios, no Peru. Agora está onipresente em toda a Amazônia e especialmente na brasileira. Nem os chineses ficam de fora – eles podem ser vistos nas dragas poderosas que sujam os mais maravilhosos rios da Amazônia. Os esforços do governo peruano por racionalizar essa atividade não parecem ter continuado com o mesmo entusiasmo do anterior ao governo atual.


"Belo Monte, a emblematicamente gigantesca hidrelétrica brasileira foi aprovada até pelo Judiciário e assim segue atropelando o senso comum apesar da oposição"
Belo Monte, a emblematicamente gigantesca hidrelétrica brasileira foi aprovada até pelo Judiciário e assim segue atropelando o senso comum apesar da oposição e, pior, escondendo atrás da sua enormidade outras várias dúzias de barragens na Amazônia brasileira que, em pouco tempo, será igual às outras regiões desse país. Ou seja, que todos seus rios estarão represados, não uma, senão muitas vezes, alagando as melhores terras e matas e destruindo para sempre o que eram ecossistemas valiosos e únicos no planeta. Maravilhas cantadas nas escolas e nas manifestações patrióticas serão reduzidos a sucessões de lagos estéreis.

Imprensa

A imprensa, apesar dos esforços de alguns meios, nunca mostrou bem a realidade do problema Belo Monte e, num exemplo vergonhoso, uma conhecida revista dedicou muitas páginas para desmentir as supostas leviandades de artistas famosos que se preocupam pelo futuro da Amazônia com base em uma “análise séria feita por estudantes”. A leitura dessa nota é revoltante quando pretende “nocautear” os artistas afirmando, por exemplo, que a energia hidráulica é limpa. Os perpetradores desse atropelo jornalístico ignoram, evidentemente, que ninguém mais nega que ademais de seus múltiplos impactos sociais e ambientais, agora se soma a geração significante de gases de efeito estufa, em especial metano e dióxido de carbono. A energia hidráulica tampouco é energia limpa.

Todos ainda parecem esquecer que a energia de origem hídrica deve ser transportada até os centros de consumo mediante longas feridas nas matas, nas quais penetram invasores de todo tipo. Nem as unidades de conservação são poupadas desse atropelo. No final das contas os artistas, como os cientistas e grande parte da sociedade, apenas reclamam que o tema do uso hidrelétrico dos rios seja motivo de um verdadeiro debate e que alguns rios, pelo menos, sejam declarados livres desse uso. Mas o governo se nega a fazer isso, limitando-se a “cumprir a lei” com as audiências públicas e a ordenar a aprovação de estudos de impacto ambiental post mortem, ou seja, após a decisão, quase secreta, de fazer.

Maus exemplos

O ano 2011 será lembrado como o da decisão sobre o Código Florestal do Brasil. Esperava-se que, se revisado, fosse modernizado e reforçado levando-se em conta os desastres “naturais” cada vez mais acentuados nesse país. Ilusão vã, pois com argumentos falsos, pretensamente sociais e econômicos, uma ampla maioria dos que foram eleitos pelo povo para cuidar dos seus interesses aprovaram uma lei que não é apenas um retrocesso, mas também permite e facilita a destruição de vegetação. Provocará ainda mais mortes e tragédias. Obviamente, os grandes interesses do agrobusiness ganharam e, prejudicando a todos, terão lucros ainda maiores. Os poderosos de outros países amazônicos, que sempre ecoam os do Brasil, sem dúvida já estão se preparando para replicar o triste exemplo.


"O Código Florestal provocará ainda mais mortes e tragédias"
Continua, em todos os países, a pressão dos governantes para reduzir a importância dos seus ministérios do meio ambiente e, em especial, para não permitir que eles tenham a capacidade de fazer licenciamento ambiental verdadeiro. A estratégia é simples: como as obras são todas decididas muito antes de qualquer consideração ambiental, para os governos esse processo é apenas perda de tempo. Por isso os governos não dão recursos aos organismos ambientais. Consequentemente, o escasso pessoal técnico que deve analisar os estudos, em geral jovens e sem experiência, não tem competência para fazê-lo bem e com eficiência.

Para resolver esse gargalo construído pelo próprio governo, o Brasil passou, neste ano, uma norma que com o pretexto de descentralizar e agilizar o licenciamento praticamente acaba com qualquer resquício de seriedade. Na mesma linha o presidente do Conselho de Ministros do Peru alertou que não toleraria que estudos de impacto ambiental requeiram mais de seis meses para serem feitos e aprovados. Logo retirou o dito. Voltando ao Brasil já é bem conhecido que a excelente ideia e prática de dispor de um Conselho Nacional de Meio Ambiente, com poder resolutivo, que foi um exemplo mundial, é agora essencialmente ornamental. Outro retrocesso que será bem aproveitado nos demais países da região.

O Brasil tem outros maus exemplos para a sua região de influência. Neste ano foram contabilizadas mais de trinta propostas de eliminação, redução de tamanho ou de degradação a categorias menos protegidas de unidades de conservação. Muitas foram prejudicadas e as ameaças sobre outras se multiplicam. Enquanto isso, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) continua com um financiamento pífio que não lhe permite fazer um manejo sequer próximo a um standard internacionalmente aceitável. Suas autoridades sempre são as mais rápidas e prestativas a aceitar cortes e prejuízos para as áreas protegidas que deveriam proteger. A sociedade, em especial o governo promotor do desenvolvimento, ainda não compreendeu a grande oportunidade que as unidades de conservação oferecem para exibir um completo, bem manejado e bem equipado sistema de áreas protegidas que, como bem se sabe, é a coluna vertebral da conservação da diversidade biológica ou, dito de outra forma, é a sua reserva de seguridade biológica. O custo de fazer isso representaria uma pequena parte do orçamento anual.

Pagamentos por serviços ambientais

Também é ruim a evolução da politicagem desenvolvida por algumas lideranças indígenas, especialmente as peruanas, contra as iniciativas conhecidas como REDD e REDD+, acusadas de serem produtos do mais sinistro imperialismo e de prejudicar aos indígenas. Estas iniciativas, embora perfectíveis, são até agora o melhor esforço desenvolvido para recompensar os povos que cuidam da floresta. Essas lideranças e seus assessores, se negando a dialogar fora do marco do ativismo político e com um mínimo de sensatez, estão prejudicando os povos que dizem representar.

Tampouco faz sentido o Bolsa Verde, programa do governo brasileiro. É evidente que o único propósito dessa medida é aliviar a pobreza aos povoadores rurais em nome da conservação da natureza e que, contrariamente ao anunciado propósito, pode acelerar o desmatamento. Mais sensata é uma medida do governo peruano que já este ano distribuiu dinheiro exclusivamente a comunidades indígenas que se comprometeram a não desmatar.


IIRSA

Já transcorreram mais de dez anos desde que a Iniciativa para Integração da Infraestrutura da América do Sul (IIRSA) foi lançada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Corporação Andina de Fomento (CAF). Foram feitos centenas de estudos na sua maior parte muito sérios e bem documentados, demonstrando seus erros, sua imprudência, seu descaso da lógica e seu nauseabundo impacto social e ambiental. Dúzias de milhares de artigos foram escritos contra ela por gente de esquerda, o que é tradicional e por gente de direita, o que é inusitado.


"...grandes empreiteiras que fazem obras sem importar se realmente servem para algo mais que ganhar dinheiro"
Nada comoveu a poderosa máquina de fazer dinheiro montada pelos mencionados bancos, pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil (BNDES), pelos governos sul-americanos e, em especial, pelas grandes empreiteiras que fazem obras sem importar se realmente servem para algo mais que ganhar dinheiro e, claro, pelas empresas que exploram os recursos naturais. Por isso, a loucura de construir barragens e lagos artificiais gigantescos no lugar de se fazer obras eficientes ou estradas que não têm justificativa conforme as regras universais da economia, mas que fazem muito sentido para encher bolsos de alguns privilegiados. Essas são as obras que sempre são aprovadas rapidamente, enquanto as que são realmente necessárias para o desenvolvimento languidescem no esquecimento.

Interesse de quem?

Estradas, ferrovias, hidrovias, mineração, centrais hidroelétricas, exploração de hidrocarbonetos, plantações industriais ou exploração de madeira são, todos, propostos por empresários poderosos apenas em procura de enriquecer e pelos políticos no poder, sem distinção das suas tendências direitistas ou esquerdistas, sempre em nome do desenvolvimento social e econômico das nações. Década após década apenas miséria, fome e enfermidades subsistem ao redor de todas essas obras “indispensáveis” para o crescimento nacional, como demostrado na avaliação dos Objetivos do Milênio.

"Os esforços denodados, quase heroicos, de tanta gente que desde tantas outras trincheiras lutam pela construção de uma Amazônia verdadeiramente sustentável, com qualidade de vida, equilíbrio entre ambiente e desenvolvimento e paz social são fundamentais."
A pobreza rural e a falta de serviços públicos, especialmente saneamento, são dramáticos nessa região, inclusive nas zonas urbanas. No entanto continua-se fazendo estradas novas sem investimentos em desenvolvimento rural ou em qualidade da vida urbana, continua-se promovendo o turismo ao mesmo tempo em que se financia ou se tolera a destruição das paisagens naturais mais belas do país, continua-se construindo obras que não servem para nada. As nações amazônicas ainda não compreendem o que são as suas “amazônias” e, pior, agora como antanho acreditam que são apenas territórios selvagens a ser conquistados e explorados.

Os esforços denodados, quase heroicos, de tanta gente que desde tantas outras trincheiras lutam pela construção de uma Amazônia verdadeiramente sustentável, com qualidade de vida, equilíbrio entre ambiente e desenvolvimento e paz social são fundamentais para que isso tudo seja mais realidade e menos utopia. Não mencionar seus logros em 2011 não significa acreditar que perderam seu tempo. Apenas significa que o tempo em que suas visões e resultados mudam os fatos ainda não chegou. Confio que a grande mudança chegará antes que seja tarde demais, quiçá em 2012.


Marc Dourojeanni foi professor e decano da Faculdade Florestal da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru e Diretor Geral Florestal desse país. Atualmente é Presidente da Fundação ProNaturaleza.